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Nicodemos e Jesus: a conversa mais reveladora da história

Por Rangel Ramos
Nicodemos e Jesus

NICODEMOS E JESUS: O QUE O THE CHOSEN NÃO TE CONTOU!

“Nicodemos e Jesus se encontraram à noite e Nicodemos disse a Jesus: ‘Mestre, sabemos que ensinas da parte de Deus, pois ninguém pode realizar os sinais miraculosos que estás fazendo, se Deus não estiver com ele’. Em resposta, Jesus declarou: ‘Ninguém pode ver o reino de Deus, se não nascer de novo” João 3.2

Na época de Jesus, aos seis anos de idade os garotos de Israel começavam a ser enviados às Sinagogas para estudar a Torá. Aprendiam a ler, escrever e até aos dez anos deveriam ter todo o Pentateuco (5 primeiros livros da Bíblia) decorado.

Passavam, então, pela primeira fase do sistema educacional judaico: o Beit Sefer, alguns eram convidados a continuar os estudos, outros não. Aqueles que não eram aprovados voltavam para suas casas e passavam a desenvolver o ofício de suas famílias. 

O segundo estágio era chamado de Beit Talmud, dos 10 aos 14 anos, os garotos memorizavam todas as escrituras sagradas. Decoravam os textos históricos, proféticos e os salmos. Eram submetidos a mais um teste entre os doutores da Lei.

Novamente, apenas os melhores alunos continuavam para o terceiro estágio. O jovem, então, submetia-se ao exame de algum rabino a fim de ser aceito como seu discípulo, em hebraico: talmidim. Essa etapa era chamava de Beit Midrash.

O rabino realizava alguns testes para saber se o pupilo seria capaz de substituí-lo e dar sequência em seu legado. Afinal, cada rabino tinha suas próprias interpretações da Torá, isto é, seu jugo, sua Gema. O talmidim daria sequência na linha hermenêutica de seu rabi.

Depois de aprovado, o discípulo estudaria a doutrina de seu rabino, se tornando um talmidim. Mas, os jovens que não eram escolhidos por nenhum rabino voltavam para casa. E, consequentemente, se dedicariam a trabalhar o resto de suas vidas com o ofício da família.

Porém, os melhores dos melhores, os jovens mais inteligentes. Aqueles que foram aprovados em todos os testes poderiam fazer parte do Sinédrio, ou seja, a cúpula religiosa e legislativa judaica.

Contudo, se não bastasse toda esse processo de seleção, J. Jeremias diz que o jovem precisava também ser descendente de alguma família nobre da sociedade israelense. Ou, ser da linhagem hereditária de Aarão, conhecida como a linhagem sacerdotal.

Por dentro do sistema!

Dentro no Clero judaico havia uma hierarquia: 

  1. Sumo Sacerdote; 
  2. Comandante do Templo; 
  3. Chefe da Seção Sacerdotal Hebdomadária;
  4. Chefe da Seção Sacerdotal Cotidiana; 
  5. Vigilante do Templo; 
  6. Tesoureiro; 
  7. Levitas (Baixo-Clero) – Músicos, Serventes do templo, porteiro-chefe…

Se quiser saber mais sobre o levitismo, ou como surgiu a linhagem sacerdotal leia nosso artigo sobre a Aliança de Sal.

Nicodemos, provavelmente, fazia parte do alto clero, pois, o Evangelho sugere que ele era uma “autoridade” entre os judeus. Ou seja, Nicodemos é dos jovens que passaram por todas as fases do sistema educacional. Ele é um dos melhores dos melhores.

Eu, particularmente desconfio que ele seria o Comandante do Templo, logo abaixo de Caifás, o sumo-sacerdote. O The Chosen mostra Nicodemos como alguém procurado pelos romanos para que a ordem fosse mantida, provalvelmente, no contexto de Jesus, o comandante do Templo é que teria essa função. Quase como um ministro da defesa em nossa Democracia.

Mas, é claro, isso é apenas uma hipótese, afinal, o texto do evangelho não deixa claro qual era a função de Nicodemos e qual era o seu cargo dentro do Sinédrio. O que sabemos é que ele era respeitado, tanto pelos judeus quanto pelos romanos.

POR QUE NICODEMOS SE ENCONTROU COM JESUS?

Se transportássemos a história para os dias de hoje, Nicodemos teria uma posição equivalente à um Ministro de Estado, Juiz Federal, Senador. Sem falar na posição religiosa, que no contexto judaico antecederia todas essas citadas em comparação ao nosso contexto brasileiro atual. Ou, até mesmo uma posição acadêmica.

O que quero dizer é que Nicodemos era um dos homens de Israel capaz de tomar decisões que poderiam afetar toda a sociedade. Ele poderia decidir a sentença de alguma causa. Poderia condenar alguém à morte. Ele ditava novas interpretações para a Lei. Foi professor de muitos outros jovens inteligentes da época.

Isto é, Nicodemos foi aprovado em todas as etapas do sistema educacional judaico. Era um fariseu, um aristocrata, uma autoridade instituída. Provavelmente, filho de alguma família importante da época. E, por isso, tinha responsabilidades com seus pares e muitos protocolos a seguir.

Ou seja, seu encontro com Jesus jamais poderia ser às claras.

Afinal, Jesus era um rabino não reconhecido oficialmente. Para alguns historiadores, Jesus pode até ter sido aprovado em todas as etapas do sistema educacional judaico.Mas, por ser de uma família humilde, da província de Nazaré, seria considerado um galileu sem descendência de Aarão,

Jesus nunca poderia fazer parte da cúpula religiosa judaica. 

Portanto, o encontro entre Nicodemos e Jesus seria muito improvável. Na verdade, eles faziam parte de movimentos opostos. Mesmo que tivessem um objetivo em comum, caminhavam por estradas diferentes. Não poderiam sequer ser vistos em público conversando. Isso seria algo muito desonroso para Nicodemos.

E, é por isso que o encontro de Nicodemos e Jesus acontece na calada da noite. Nicodemos sabe das consequências que viriam sobre ele caso fosse visto conversando com um nazareno que se dizia rabino. Provavelmente, receberia sanções. Perderia cargos e privilégios. Talvez, fosse acusado de traição.

Há quem diga que existe a possibilidade de Nicodemos nem ser o nome verdadeiro dele. De acordo com o historiador Flávio Josefo, haviam dois rabinos famosos em Jerusalém na época de Jesus: Hilel e Shamai. O escritor do evangelho pode ter usado um codinome para preservar a identidade original de Nicodemos.

Eu tenho uma teoria. Para mim, Nicodemos é um pseudônimo para Paulo. Sabe por que? Porque no texto de Atos, Paulo reconhece Jesus quando cai do cavalo. Isso só poderia acontecer se ele já tivesse visto Jesus em outro momento. Cronologicamente, Paulo tinha idade para estar em Jerusalém e ser alguém importante no Sinédrio. Inclusive, quando cai do cavalo, ele estava indo cumprir ordens de perseguição.

Mas, é claro. É, apenas uma teoria. Eu precisaria fazer um trabalho de pesquisa para testar minha hipótese. O que sabemos é que há muitas especulações a respeito do encontro de Nicodemos e Jesus. Porém, algo é certo, a conversa entre Jesus e Nicodemos é de altíssimo nível intelectual.

NICODEMOS E JESUS NA CALADA DA NOITE

De qualquer forma, eu sempre quis entender o porquê de Nicodemos ter ido falar com Jesus na calada da noite.  E, depois que aprendi como funcionava o sistema educacional judaico compreendi a atitude de Nicodemos.

Para mim, Nicodemos teria, pelo menos, duas razões para ter escondido seu encontro com Jesus.

A primeira é a que já narrei aqui. Nicodemos poderia sofrer algum tipo de retaliação por parte de seus colegas do Sinédrio. E, a segunda razão, seria a vergonha por ser visto perguntando algo para um rabino não reconhecido oficialmente.

Mas, de uns dias pra cá, Deus ministrou outra coisa em meu coração. Comecei a compreender que no fim, o medo e a vergonha de Nicodemos eram fruto do seu orgulho.

Nicodemos estudou muito. Se dedicou demais para chegar onde chegou. Ele não só teve a sorte de ter nascido em um lar privilegiado. Ele teve que provar sua capacidade para ocupar o cargo que ocupava. Não foi uma trajetória fácil.

Claro que não podemos ser ingênuos e descartar a possibilidade dele ter chegado ao poder por vias corruptas, como o nepotismo ou a simonia. Mas, se concordarmos que ele chegou via sistema educacional, então, sim, ele se dedicou muito. Muito mesmo. 

Ele deve ter sido avaliado inúmeras vezes e, provavelmente, abriu mão de muitas coisas. Talvez tenha sido um adolescente retraído, diferenciado dos outros. Talvez não pôde desfrutar dos benefícios de um jovem rico da época.

Quem sabe havia sobre ele uma expectativa de sua família? Talvez houvesse sobre seus ombros o peso de levar o legado de seu pai, seu avô? Ou seja, todos esperavam que ele fosse um homem importante e influente em Israel.

E, então, se vê ali naquele lugar sendo confrontado por um rabino de Nazaré. Ele sabe que há algo de diferente em Jesus, mas há tanto conflito dentro dele que é impossível simplesmente entender o que é nascer de novo.

POR QUE NICODEMOS NÃO SEGUIU JESUS?

Quando lutamos muito por alguma coisa, obviamente que isso promove muito orgulho dentro de nós. E o orgulho é uma faca de dois gumes.

Ao mesmo tempo que nos enche de motivação pela realização de algo pelo qual nos dedicamos muito.

O orgulho também nos engessa em relação a outras situações porque é muito difícil desconstruir aquilo que lutamos tanto para conquistar. 

E quando penso e reflito sobre como podemos amar mais Uns Aos Outros, eu vejo que o orgulho age de três formas negativas sobre nossas vidas:

1. No orgulho não há perdão

Muitos relacionamentos terminam porque as pessoas ficam enrijecidas pelo próprio orgulho. 

Eu sei que ter amor próprio é importante, mas será que não ceder ou não abrir mão de certo posicionamento é, realmente, amor próprio? Ou é simplesmente teimosia e orgulho? 

Penso que ao deixarmos o orgulho de lado, nosso coração fica mais suscetível a pedir perdão e melhorar nossa relação com Deus e com as pessoas. 

Deus está sempre disposto a perdoar. A Bíblia diz que Ele não resiste à um coração quebrantado e contrito. Não é? Mas, muitas vezes, nosso orgulho nos impede de simplesmente sermos amados por Deus.

O orgulho também não nos deixa amar e liberar perdão a quem nos ofendeu.

 

Como diria John Maxwell “precisamos aprender a construir pontes e não muros”. O orgulho só aumenta as barreiras, mas o perdão, ele sim, constrói pontes.  

Pedir perdão, perdoar e liberar perdão é fundamental para que possamos, realmente, aprender a amar a Deus e uns aos outros.

2. No orgulho não há alteridade

Alteridade é um conceito que tenho perseguido para aplicar em minha vida nos últimos anos. Me expor, me envolver e conviver com pessoas que pensam diferentemente de mim. 

A alteridade nos torna mais humanos.

 

Mas, se eu for orgulhoso não vou me sensibilizar com a causa do outro. Não conseguirei ser empático. Serei um sujeito que só olha para o próprio umbigo. O orgulho limita minha visão ao meu próprio mundo.

Se quisermos cumprir o “amar uns aos outros” precisamos romper nossas fronteiras e parar de querer que as pessoas pensem e ajam igualmente a nós.

Cada pessoa é diferente. E, é na diferença que o amor precisa transbordar.

3. No orgulho não há humildade

O orgulho nos impede de vivenciar as experiências que Deus tem pra nós. Se pensarmos no pecado de Adão, compreendemos que o problema maior não é a desobediência. No fim, o pecado de Adão é o desejo por querer ser igual a Deus. 

Deus tinha algo para que ele vivesse e vivenciasse, mas, ele quis viver por si mesmo. É isso que o separa de Deus. É isso que o faz desobedecer. Muitas vezes deixamos de viver experiências espirituais e especiais com Deus porque deixamos o nosso orgulho falar mais alto. 

Ficamos preocupados com o que as pessoas vão pensar. Temos medo de sentir que estamos sendo ridicularizados.

A vergonha nos trava e o orgulho nos afoga.

 

É preciso sabedoria para diferenciar a motivação que o orgulho nos dá e a soberba potencial que ele nos proporciona. 

Precisamos nos automotivar sem necessariamente nos isolarmos de Deus e das pessoas que nos ajudam a conquistar nossos objetivos.

o que a história de nicodemos nos ensina?

Portanto, não deixe o orgulho te afogar, em vez disso, mergulhe voluntariamente na graça de Deus. Só Ele é capaz de lançar nossos pecados no profundo mar do esquecimento. Em nossa relação com Deus não há acusação. E, isso é fantástico. Isso é graça.

Sabe, às vezes, eu fico vendo que a maioria das pessoas tem dificuldade em compreender a noção de justiça de Deus. Para alguns, Deus é injusto porque perdoa. É injusto porque simplesmente recebe qualquer pecador, independente, de sua condição.

Para outras pessoas, os pecadores precisam sofrer, devem sofrer, pois, se não sofrerem Deus não está sendo justo. Para alguns: “aqui se faz, aqui se paga”. Mas, essa não é a lógica de Deus.

Ao abrir mão do orgulho, nossas limitações acabam. Quando diminuímos Ele cresce. É nessa dinâmica que Deus opera. Ao deixarmos o nosso orgulho ele nos faz atravessar as fronteiras do medo, da vergonha, da limitação. Ele nos faz transbordar. 

Nicodemos sabia muito. Era inteligente. Tinha um posição acima de muitos. Mas, lhe faltava uma compreensão sobre o que não é natural.

Nicodemos aprende com Jesus que sem uma experiência sobrenatural de nada vale seu conhecimento.

 

Por isso, Jesus recomenda que Nicodemos nasça de novo. Sugere que ele precisa de uma experiência de nascimento espiritual. Uma experiência que não se limita a água e sangue. Mas, que o interpela pela consciência e o espírito.

Jesus convida Nicodemos para um lugar onde todo o conhecimento que ele tem não é necessário. Um lugar onde o orgulho pode ser colocado de lado. Um lugar onde as credenciais são ineficazes. Um lugar onde só o amor importa.

Minha oração é que, ao contrário de Nicodemos, possamos encontrar Jesus no brilho da luz e não na calada das nossas noites.

Que deixemos nosso orgulho, vergonha e status de lado, para vivenciar o eterno amor de Deus.

Rangel Ramos
Doutorando pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mestre em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF). E bacharel em Teologia pela Faculdade Batista do Paraná e em Comunicação pela UTFPR. Escreve sobre liderança, desenvolvimento pessoal e textos devocionais. É um dos idealizadores do movimento Uns Aos Outros.
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Comments (1)

[…] era um cara muito importante, letrado e inteligente. Provavelmente fazia parte do Sinédrio. Aqui tem um texto que fala mais sobre o encontro de Nicodemos com Jesus. Se ler vai descobrir porque o encontro […]

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