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Do cativeiro à liberdade

Páscoa

PÁSCOA: DO CATIVEIRO À LIBERDADE

Páscoa é celebração! Celebrar é tornar célebre, solene, digno de alegria. Mas, o que celebramos?

Para muitos, seja por falta de reflexão ou informação talvez, é apenas mais uma data para troca de chocolates ou um saboroso almoço com os seus.

Não vejo problema nisso, pelo contrário, é também um tempo para as coisas que nos alegram.

Páscoa, porém, é muito mais. Ela nos remete a uma tradição, diria Rubem Alves: “um tempo que se foi, mas que se recusa a ir de vez e fica dentro da gente, atormentando o coração com saudade”.

Uma tradição que transcende o tempo e que, à luz da fé judaico-cristã, dá um sentido sagrado à libertação ou à ação de Deus que não suporta a injustiça e a opressão.

Escreveu São Paulo: “onde está o Espírito do Senhor ali há liberdade” (2Cor 3,17).

Quem são os oprimidos hoje? Como pensar a libertação à luz dos testemunhos bíblicos? Podemos falar de uma nova páscoa?

Os oprimidos de hoje são as vítimas de um sistema que acorrenta, explora e leva à morte. Esta situação é percebida no Brasil e podemos observá-la na desigualdade social que atualmente é uma das maiores do mundo.

Há uma imensa massa de pobres, desempregados e miseráveis vendendo por um salário de fome sua força de trabalho, enquanto há poucos, detentores dos meios de produção ou do capital, acumulando riquezas e influenciando os poderes a seu bel prazer.

No relatório da ONU a desigualdade tem um rosto: falta de acesso a uma educação de qualidade, saúde, saneamento básico, transportes públicos eficientes, bons salários e falta de uma justa política fiscal.

Sobe aos céus o Clamor das vítimas deste sistema desigual e produtor de opressão. Como pensar o clamor destas vítimas à luz da Bíblia?

A Bíblia nasce do grito e da esperança de libertação dos oprimidos. Gênesis 49.18: “No Senhor, espero a libertação.”

Os hebreus, oprimidos na terra do Egito, clamaram por libertação e Deus viu e ouviu o seu sofrimento (Ex 3,8). É preciso conhecer a mensagem de libertação para entender o sentido da páscoa.

Deus se revela como Iahweh, o único e verdadeiro capaz de descer ao humilhado, arrancá-lo da exploração dos ídolos e do poder dos exploradores e conduzi-lo à uma nova terra, templo vivo de Criador.

Quarenta anos durou a travessia pelo deserto e, Isaías, em outro contexto de opressão, traduziu a compaixão divina: “Eu o Senhor, o chamei para justiça; segurei firme a sua mão.

Eu o guardarei e farei de você um mediador para o povo e uma luz para os gentios, para abrir os olhos dos cegos, para libertar da prisão os cativos e para livrar do calabouço os que habitam na escuridão” (Is 42,6-7).

A Igreja primitiva, trazendo à memória esta tradição, entendeu que, com a libertação do pobre da libertação do pobre, liberta também aqueles que vivem nas trevas do poder e da riqueza.

A comunidade de Timóteo (1 Tm 6,17) entendeu esta mensagem: “Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos”.

Os que são tocados por esta tradição, à luz da fé pascal, têm a missão de anunciar a libertação: Que ninguém seja violentado nos seus direitos; que nenhuma pessoa passe fome, mas receba um bom salário pelo trabalho digno que realiza; que ninguém seja ignorado em sua dor e sofrimento e que não haja preconceitos por conta de raça, cor ou gênero.

Páscoa, mais do que uma festa com banquetes e bebidas, é tempo de reflexão e retomada do verdadeiro sentido de libertação. É momento de voltarmos à nossa tradição judaico-cristã e lembrarmos da História de nossos pais, os expatriados e explorados por um sistema injusto e violento. É momento de ressignificar o tempo que se chama hoje.

Páscoa é tempo de celebrar, mas é principalmente tempo de conscientização e conversão de nossas ideias que, muitas vezes, infelizmente, combinam com a dos poderosos deste mundo.

Extraído de: Teologia Em Diálogo

Deutero Isaias
José Neivaldo
Doutor em Teologia pela Pontificia Universitas Gregoriana de Roma. Mestre em Filosofia pela Pontificia Studiorum Universitas AS. Thoma Aq. in Urbe de R oma. Mestre em Psicologia Clínica pela Universidade Tuiuti do Paraná. Escritor e psicanalista atua na área filosófica, com ênfase em educação, ética e lógica
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