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Freud leu a Bíblia?

Por Uipirangi Câmara
Freud leu a bíblia?

O DIA EM QUE FREUD LEU A BÍBLIA

Não sou muito afeto à mistura de alhos com bugalhos, quando o faço é por pura analogia ou metáfora. 

No caso de Freud e o Evangelho, preciso deixar claro que unir psicanálise com cristianismo não é a nossa praia, então para deixar mais claro, me causa até arrepio saber que há pastores psicanalistas e até psicanálise cristã sendo oferecida como curso por aí. 

Dito isto, vamos ao sonho (Quem lê, entenda).

Uma das coisas mais sensacionais em Freud foi sua ousadia em se meter, com a cara e a coragem, a fazer uma investigação da mente humana e, ainda mais ousadia propor uma teoria para explicar que os sintomas no corpo são fruto do que acontece na mente, mas, e isso era mais forte ainda para sua época (Vamos focar em início e meados do século 20), que medicina alguma pode curar olhando só para eles e como eles se manifestam no corpo. Trocando em miúdos, não dá para tratar vírus com cloroquina.

Há muitos algos nos armários, sótãos e gavetas de nosso interior, escondidos, bagunçados, misturados e desconhecidos. 

E isso é um problemão danado, porque muitos de nós, de nossas escolhas, medos, reações, desejos e repressões são motivados por essa bagunça. 

Freud não usou ciência para essa escalada ao Everest, ou descida ao Vesúvio,  mas a ciência hoje atesta, com outros documentos, sua sacada. 

Sim: o desconhecido que mora em nós, é o gerente que muitas vezes toma decisões sem nos consultar. E, cá para nós, algumas, literalmente, são de matar, por inteiro ou por pedaços, inclusivamente lentamente.

Ao olhar em sua estante acidentalmente (se bem que o termo “acidentalmente” é discutível em psicanálise e em algumas correntes da psicologia, veja por exemplo o “Andar do bêbado” de Leonard Mlodinow) e vê um exemplar da Bíblia, pensa um pouco, pega e resolve folhear algumas páginas. 

Cai exatamente no Salmos 19. Se impressiona especialmente com o versículo 12 “Perdoa-me até pelos pecados que desconheço”, antes deter-se no versículo em questão ele resolve fazer o que todo bom leitor da Bíblia deveria fazer, ainda que depois de uma leitura puramente devocional.

Detalhes de Contexto do capítulo em questão, Freud passa os olhos e nota que a: Datação: incerta. O salmo traz marcas que cabem bem no período monárquico (uso de imagens reais e cósmicas) e também ecos sapienciais que continuam no pós-exílio. 

Atribuição “de Davi” é do título tradicional, não prova de autoria; O cenário religioso parece ser um contraponto ao ambiente do Antigo Oriente Próximo, onde o sol era divinizado (ex.: Šamaš). Aqui, o sol é criatura; YHWH é o Criador e Legislador, e, finalmente, parece que o uso cultual: muito provável em liturgia (templo) e catequese (sabedoria), por unir louvor cósmico, exaltação da Torá e oração pessoal.

Freud, pula os versículos e vai direto ao 12, intrigado com a declaração do autor de que ele precisava ser perdoado daquilo que não tinha consciência. Os rabiscos do Freud no canto da página dos salmos: O autor parece reconhecer que em sua vida há erros que ele comete sem notar… Por que? (viés, hábito, autoengano?).

Sem pestanejar Freud vai para suas anotações de algum dia talvez, resolve colocar lado a lado, num rabisco sem muita ponderação, onde a fala do salmista se parece com a dele, onde parecem se confundir e onde se distanciam. 

Ele vai didatizar a estrutura: 

  1. Ponto de contato; Pontos cegos existem. O autor do Salmos fala de faltas ocultas que não percebe; Eu vou descrever isso como conteúdos inconscientes (recalque, resistência) que escapam à consciência e moldam atos e sintomas. 
  2. Onde eu acho que se parecem: Autoengano estruturado. O autor do salmos parece assumir que há uma cegueira moral real. Por enquanto eu vou chamar isso de resistência/recalque que mantêm ideias e afetos fora da consciência. Hum, parece também que o versículo sugere a necessidade de  mediação externa. O autor do Salmo pede a Deus que purifique; a Torá ilumina a consciência (vv.7–9). Eu acho que ele precisa de análise (transferência, interpretação) para trazer à fala o que foi recalcado. Hum, mais uma coisa parece ser possível de linkar aqui: Domínio versus liberdade. O autor pede que “Deus” não deixe que ele seja dominado pela soberba (V. 13). Me parece que aqui ele expressa um receio implícito de  compulsão à repetição: padrões que tomam o volante se nada for elaborado.

É, mas nem tudo que parece é… Eu acho que nos divertimos profundamente em alguns pontos, pensa Freud. Ele pensa dentro de um quadro moral, eu, metapsicológico. Ou seja, ele lida com a categoria de pecado, talvez uma culpa objetiva diante de Deus, cuja  solução é purificação e retidão. 

Eu acho que a categoria aqui é de conflito psíquico. E a solução talvez seja de insight e elaboração, não absolvição. Discordo também da origem da culpa.  Ele se sente culpado pela quebra da vontade divina, mesmo sem notar, Eu acho muito da culpa é superegoica, às vezes neurótica, desproporcional à realidade. 

Por fim, ele faz um apelo à Autoridade que corrige, apela a revelação (Lei) como padrão externo que vai dar conta disso. Eu vou anotar aqui que isso é uma espécie de linguagem do sujeito em transferência, não há, para mim, um critério transcendente.

Freud fecha sua Bíblia e se retira, precisa ver novamente a Charcot, marcaram um café e ele já estava atrasado…

Agora somos eu e você, antes de mais nada me perdoe por deixar alguns termos como iscas pedagógicas (superegoica, metapsicológico), afinal de contas você também precisa pescar em outros rios. 

O pior que pode acontecer, se não souber nadar e se atrever a pular na água, é morrer. O menos doído (Apesar de eu crer que você vai elaborar uma boa explicação) é voltar sem nenhum peixe na mão.

Sofremos muito e não por causa da fé e tampouco pela prisão que pode se dar através da noção de que a razão pode tudo. Mas pela nossa teimosia em fugir de uma reflexão libertadora. 

Ora, se não sei por quais pecados devo ser punido, por que essa insistência em viver eternamente necessitado do perdão divino? Que tipo de vida é essa? Que raios de libertação é essa que joga perfume nas algemas? 

Precisamos de uma vida mais leve…

Uipirangi
Uipirangi Câmara
Doutor e Mestre em Ciências da Religião, Especialista em Tecnologias Educacionais, Especialista em Filosofia e Teoria do Direito, Professor de Filosofia Geral, Filosofia da Educação, Filosofia do Direito e Sociologia Jurídica.
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