ACOLHIMENTO INTEGRAL DA PESSOA HUMANA: A CASA DE LÓ E A CASA DO OUTRO LADO DA RUA
De forma geral, o acolhimento é entendido como uma postura ética que implica na escuta ativa de alguém que está passando por um momento difícil.
Sabemos do protagonismo do acolhimento no tratamento de doenças emocionais e que a falta dele acelera o processo de adoecimento, por isso, acolher é sim uma responsabilidade cristã.
Nós entendemos que a Bíblia tem o amor como tema central e, por consequência, o acolhimento também passa a ser de suma importância. Mas, será que conseguimos compreender onde estamos falhando nesse processo?
Neste texto refletimos sobre a postura de Ló, quando ele prefere “entregar” suas filhas para terem relações sexuais com os sodomitas que queriam “conhecer” os visitantes celestiais que se hospedavam em sua casa.
Tradicionalmente, no meio Cristão Brasileiro, os textos bíblicos são desnaturalizados e suas leituras se dão de forma anacrônicas sendo guiadas muitas vezes por interesses pré-fixados.
As leituras no cotidiano do crente e das comunidades em geral são sempre leituras de fé, carregadas de simbologia, imagética e decididamente comprometidas com ideologias dominantes ou modelos à semelhança do dever ser, não do que se é.
Coisas como cronologia, hermenêutica, contextos culturais, semiótica, sentidos e representação são extra-mundanos, circunscritos muitas vezes aos Institutos de formação ou à seara dos especialistas.
Esses, por sua vez, sempre vistos com desconfiança quanto às suas intenções e interesses em termos de fé, flertando na maioria das vezes com a descrença, no jargão protestante comum – o liberalismo.
“Abra a cabeça para refletir possibilidades diferentes de leituras dos textos. Elas podem não tirar você do Caminho, mas acrescentar mais viajantes ao seu lado”
Revisitar os textos bíblicos a partir de instrumentos hermenêuticos é uma imposição como, por exemplo, a mesma que possuem engenheiros que desejam edificar prédios em áreas de praia – a solidez de seus empreendimentos depende de decisões racionais, lógicas, ainda que os sonhos estéticos sejam os motivadores da adesão de futuros condôminos.
Encontrar significados culturais, orientações éticas, armadilhas ou designações etimológicas são necessárias, sobretudo se o referencial concebe o mundo como fruto da criação divina e a história como o desenrolar de seus desejos. Nesse sentido, estudiosos ou leigos precisam assumir esse compromisso, correndo, na pior das hipóteses, o risco de redefinirem suas posturas, discursos e ética.
Elizabeth Johnson (1995) diz que a maneira de se falar de (ou sobre) Deus, ou a linguagem apropriada em relação a qual é representado numa determinada comunidade, revela não apenas o que, implicitamente se considera como verdade, como legítimo, mas também modela, de forma profunda, a identidade que essa comunidade incorpora e por quais valores orienta a sua práxis.
“O modo de falar em relação a Deus dá forma à orientação da vida, não apenas do conjunto da comunidade de fiéis, mas também de cada um de seus membros”.
Um modo peculiar de se falar de Deus, seja consciente ou inconsciente, pode também revelar um mundo imaginário e estrutural, a partir do qual, um ambiente de exclusão seja favorecido e perpetuado.
Portanto, ouvidos atentos podem perceber que, por trás de certa maneira de se falar de Deus, escondem-se mecanismos restritivos e limitadores em relação à pessoa humana. Tal situação pode ser alterada, se for alterada a forma tradicional usada para falar e refletir sobre Deus.
O acolhimento e a Casa de Ló
O texto de Gênesis (Capítulo 19), relata um episódio intrigante. O personagem Ló, em um dos seus momentos reflexivos em Sodoma, depara-se com dois homens estrangeiros e, reconhece em sua face, características divinas, não há outra coisa a fazer: inclina-se perante os anjos visitadores e lhes presta homenagem.
Além disso, como bom cidadão e religioso, vê como sua a responsabilidade de oferecer-lhes hospedagem, alimentos e proteção em sua casa. A noite, entretanto, não termina num sugerido descanso de Ló aos seus visitantes.
Seguindo a narrativa do Gênesis, todos os homens da cidade de Sodoma, ao saberem de ilustre visita, insistiram com Ló para que ele não os privasse de desfrutarem sexualmente de seus hóspedes.
Se tal narrativa parece bizarra, surreal (para dizer o mínimo), mais estranha ainda é a decisão de Ló de oferecer suas filhas, provavelmente crianças ainda (adolescência) para que fossem usadas sexualmente em lugar dos seus divinos hóspedes:
“Façam com elas o que vocês quiserem” (Gênesis 19.8) disse o bondoso pai.
O texto é enigmático. Não há hermenêutica contemporânea possível que sustente qualquer vestígio de dignidade humana, respeito e amor por parte do pai às suas filhas.
Aliás, levando-se em conta contextos e culturas, não deve haver surpresas que tratamos (possivelmente) de filhas como propriedades do pai, por isso podem ser dispostas ao que bem lhe convir.
Supor-se o que passava na cabeça de Ló não é uma tarefa muito difícil, seu comportamento é modelar de uma cultura que considerava o dever de hospitalidade como um bem maior que a honra. (Sicre 1992)
Mas, o que se passava na cabeça de suas filhas? O que deveriam esperar de seu pai? Não seria sua casa um lugar de proteção? Não é seu pai alguém temente a Deus?
Sendo assim, esse comportamento tem aprovação divina? Elizabeth Johnson, provavelmente responderia que não. Segundo ela, “as palavras relativas a Deus são criaturas culturais, entrelaçadas aos costumes e feitos da comunidade dos fiéis que as usavam”.(Johnson, 1995).
Para Elizabeth Johnson, a linguagem que revela Deus deve conter alguns pressupostos, o mais importante deles é o da valorização de uma humanidade autêntica, aliada a uma contínua atitude de oposição e crítica à violação dessa mesma humanidade, principalmente, quando essa violação é viabilizada pelo sexismo.
A plenitude da graça de Deus é conferida ao ser humano e independe de qualquer identificação pessoal com o homem. Por outro lado, o paradigma sexista é pecaminoso, contrário ao plano de Deus e uma transgressão clara e inequívoca do compromisso de amar ao próximo, de forma integral e integrante.
O acolhimento e a Casa Do Outro Lado Da Rua
O Cristianismo não pode flertar com a desesperança, com o sofrimento, com o assédio, com a aparência que agrada a todos e segrega a humanidade daquilo que lhe é mais caro: o direito de viver.
Embora inseridos num mundo de diferenças, de desumanidades, há de se ter esperança da existência de algum lugar seguro, o mínimo que seja. Um lar, um coração cristão, precisa ser sempre lugar de acolhimento.
Na casa de Ló, pelo menos para suas filhas, isso não foi possível. Ainda que tenham sido poupadas da experiência trágica do abuso sexual, as filhas de Ló conviveram o resto de suas vidas com o episódio que desvelou o desamparo de seu pai.
Mas, como seria na casa do outro lado da rua?
O diálogo sobre a humanidade na Teologia, no plano teórico – também prático, precisa se firmar como uma necessidade que pressuponha reconfigurações e desconstruções internas.
Esse diálogo deve visar à aproximação e acolhimento da multiplicidade das pessoas que se compreendem como outras, não normativas, normalizadas, requerendo, portanto, que se faça um movimento exclusivamente interno, capaz de formular uma possibilidade de entendimento que dê conta de construir uma relação que pressuponha inclusão e apoio.
Esse movimento em prol de uma construção teórico-prática, que vise o acolhimento e inclusão da pessoa humana, na configuração contemporânea do Cristianismo no Brasil, é imprescindível.
No entanto, pensar possibilidades de inclusão, apoio e convivência que abarquem configurações identitárias múltiplas na relação com o Cristianismo, não é possível a partir de uma matriz heterossexista, principalmente porque sua lógica e orientação limitam tal possibilidade.
Permanecer em tal disposição requer de todos os envolvidos, uma reconstrução teórica de matriz alternativa que dê conta da multiplicidade e complexidade identitária dos sujeitos que compõem (e buscam compor) o cenário Cristão Brasileiro.
Todos os atores religiosos precisariam debruçar-se sobre essa questão e tentar responder, no âmbito de seus limites, sobre a possibilidade de uma relação, o que implica em acolhimento, com Sagrado, que não pressuponha a heterossexualidade como norma, tanto na perspectiva humana, quanto na configuração identitária divina que se concebe a partir do símbolo “Deus”.
O comprometimento com um novo paradigma de matriz libertadora é decisivo para que a linguagem, a partir da qual falamos de Deus, seja uma linguagem apropriada para se falar de “Deus”.
Essa linguagem não surge simplesmente com uma troca de vocábulos, tampouco com acréscimos de gênero ao conteúdo do “símbolo Deus”. Embora o uso de metáforas possa ser enriquecedor, tal linguagem só surgirá quando nela estiver contida a plenitude de identidades humanas que possam servir de símbolo divino em “proporções equivalentes”.
E, em tal projeto, é preciso que se supere uma matriz binária e rígida presente nas relações e referência de gênero transferidas a Deus, fazendo com que a essa representação legitime uma existência humana reduzida a dois absolutos relativamente opostos – masculino e feminino, nesse caso, o próprio conceito de Deus se torna refém de tal epistemologia.
Como sair de uma relação binária de gênero para construção de uma linguagem apropriada em relação a Deus?
Para Elizabeth Johnson, a superação de tal dilema pode ser viabilizada através da insistência no caráter incompleto, não definitivo, de uma linguagem que dê conta da diversidade da pessoa humana: “O mistério de Deus não é entendido de modo adequado nem como masculino e nem como feminino, mas transcendente a ambos de forma inimaginável”.(Johnson, 1995).
E, o que se percebe nos argumentos de Elizabeth Johnson, é que o inimaginável é o não pensado ainda, não o impossível. Portanto, na linha de seu argumento principal, apenas quando na simbolização de Deus for incluída a completude do homem e da mulher, juntamente com símbolos do mundo, haverá a possibilidade da superação de uma fixação idólatra.
E então? Como ficamos?
Do ponto de vista das reflexões de gênero fica evidente o caráter de incompletude da pessoa humana e a dificuldade, frente à multiplicidade e complexidade das características identitárias contemporâneas, que os aportes teóricos predominantes têm em lidar com elas.
Destituindo da posição androcêntrica o caráter normativo, valorativo e legislador, tais contribuições colocam uma perspectiva de referência não binária (masculino, feminino), evitando, por um lado, a troca de posições em gênero (dominado, dominador) e por outro, colocando em aberto a possibilidade de outras expressões identitárias da pessoa humana.
Tais encaminhamentos não se mostram apenas alternativos, mas paradigmáticos, na medida em que propõe uma inversão da plataforma, a partir da qual se regem os destinos sociais não mais da Instituição (nos seus mais diferentes rostos), e sim, da pessoa humana.
Sentam-se todos ao redor da mesa, agora, como iguais. A leitura é existencial, parte da história de vidas humanas, historicizadas, visibilizadas, perspectiva aliás, encarada radicalmente pelos fazeres teológicos, principalmente daqueles provenientes de olarias feministas.
Tais ações não apenas encararam a alternativa de ressignificação da mensagem cristã, no questionamento da exclusividade e predominância, não apenas da voz masculina, mas do pensamento, dos símbolos e referências androcêntricas que a emolduram.
Portanto, se quisermos encarar o acolhimento como uma responsabilidade cristã, precisamos nos abrir para novas possibilidades da hermenêutica bíblica, pois, ninguém consegue ter resultados diferentes operando sempre da mesma forma.
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