ALIANÇA DE SAL: O QUE APRENDEMOS COM OS LEVITAS?
“Tudo aquilo que for separado dentre todas as dádivas sagradas que os israelitas apresentarem ao Senhor eu dou a você e a seus filhos e filhas como decreto perpétuo. É uma aliança de sal perpétua perante o Senhor, para você e para os seus descendentes. Disse ainda o Senhor a Arão: Você não terá herança na terra deles, nem terá porção entre eles; eu sou a sua porção e a sua herança entre os israelitas”. Números 18.19-20
Pacto de sal no judaísmo
Levi é um dos doze filhos de Jacó. Ele é pai de Gérson, Coate e Merari. Coate teve quatro filhos: Anrão, Izar, Hebrom e Uziel. Anrão é o pai de Moisés e Arão. E, Izar é pai de Zicri, Nefegue e Corá. Esses são alguns dos nomes das primeiras linhagens de levitas. Dentre eles, o mais célebre: Moisés.
Como sabemos, Moisés é o líder hebreu que tira o povo do Egito e os leva para peregrinar pelo deserto em busca da terra prometida, isto é, Jerusalém. Do Egito a Israel há uma distância de aproximadamente 450 km. A pé, uma pessoa em condições normais, levaria 14 dias para chegar, andando na velocidade de 5 km/h. Porém, a viagem dos hebreus durou 40 anos.
Números é um dos livros da Bíblia que relata as experiências do povo no deserto. O nome hebraico do livro é Bamidban, que quer dizer “no deserto”. É ali, no deserto, que a descendência de Levi vai se transformar em algo muito maior que o patriarca poderia imaginar. Os levitas, para além de Moisés, tornam-se um dos símbolos mais representativos de Israel. É no deserto que vai surgir a Aliança de Sal.
Conhecendo o contexto
Mas, antes da gente falar sobre o quanto a tribo de Levi significava no contexto de Israel, é importante contar uma história pouco conhecida sobre a gênese da representação levítica.
Em Números capítulo 16, a Bíblia relata uma revolta liderada por Corá, um dos primos de Arão e Moisés. Os parentes de Moisés e Arão não estavam satisfeitos com a liderança deles. Os levitas haviam sido separados do restante da comunidade para serem os protetores da Tenda do Encontro, o lugar onde Moisés se encontrava com Deus, fora do acampamento, quando a coluna de nuvem descia e eles conversavam face a face (Ex 33.7-11).
A Tenda do Encontro foi transformada em Tabernáculo e Arão escolhido por Deus para exercer o sacerdócio, enquanto os levitas permaneciam acampados ao redor para protegê-lo. Dessa forma, apenas, a descendência de Arão poderia ser consagrada ao sacerdócio. Por isso, Corá e os outros levitas ficaram furiosos com Moisés e Arão, afinal, também desejavam atuar dentro do tabernáculo e terem a função sacerdotal.
A discórdia chegou a tal ponto que Deus decide aniquilar toda a família de Corá e também os levitas (Nm 16.20). Arão e Moisés intercedem a favor dos levitas, mas ainda assim, Deus faz a terra se abrir e as famílias de Corá, Datã e Abirão (Nm 16.31-35) foram engolidas pelo buraco. Isso, gerou uma revolta ainda maior entre o povo hebreu (Nm 16.42).
As tribos, então, acusaram Moisés e Arão de terem matado os outros levitas. Deus, por sua vez, procede da mesma forma que antes, só que dessa vez lançando sobre os rebeldes uma praga. Mas, em Números 16.48, a Bíblia relata que Arão se coloca entre os mortos e vivos e faz a praga desaparecer.
Por causa dessa atitude de Arão, Deus estabelece com ele uma aliança de sal.
Aliança de Sal e os Levitas
Arão torna-se o representante oficial da tribo Levi, escolhido por Deus (Nm 17.8). Moisés delibera que a família de Arão será a responsável por qualquer ofensa que o tabernáculo venha sofrer. E, que todos os levitas deveriam servi-lo e mantê-los em segurança. Por fim, Deus diz a Arão que dará à ele e aos seus filhos todas às contribuições que forem feitas ao tabernáculo (Nm 18.11). Isto é, todos os dízimos e ofertas instituídas ao povo de Israel, deveriam ser entregues nas mãos dos levitas para eles administrarem.
É nesse pano de fundo que podemos começar a aprender o que a tribo de Levi, realmente, significa para o contexto socioeconômico, político e religioso de Israel.
Quando o povo cessa sua peregrinação pelo deserto e chega na terra prometida, os levitas não recebem território, pois já haviam ganhado a porção do sacerdócio. Já tinham firmado uma Aliança de Sal com Deus. Sendo assim, eles se distribuem pelas doze tribos para se tornarem uma lembrança de tudo o que o deserto significou na história dos hebreus.
A partir daí, podemos aprender pelos menos três ensinamentos que a presença dos levitas entre nas tribos traz aos nossos dias atuais.
Fidelidade e Confiança
A presença dos levitas fazia com que as tribos lembrassem que um dia Deus quis aniquilá-los por causa de sua rebeldia, mas, Arão interveio apelando pela misericórdia divina. Por isso, as tribos carregavam uma dívida perpétua de lealdade ao levitas. Isso ensinava que eles precisavam exercer sua fidelidade para com Deus e confiar naquilo que havia sido instituído por Moisés no deserto.
Todo o povo era obrigado por lei a entregar suas primícias para o sustento dos levitas, pois eles se dedicavam integralmente ao sacerdócio. As famílias, então, separavam o seu melhor fruto da terra, ou o melhor animal de seus rebanhos para levar ao tabernáculo e, posteriormente, ao templo, para consagrar a Deus e entregar aos levitas nos rituais religiosos e na manutenção do sistema religioso.
Isso nos ensina que devemos dedicar a Deus o melhor de nós. Ou seja, a qualidade do nosso tempo, serviço e dedicação. Nos ensina que o reino celestial é nossa prioridade. O apóstolo Paulo nos recomenda a focar nas coisas do céu. E, é isso o que realmente importa.
Não é somente uma questão de devolução do dízimo. É uma conscientização de que confiamos na fidelidade de Deus, assim como, ele confia em nossa fidelidade. Uma Aliança de Sal. Uma via de mão “tripla”: Deus, Sacerdotes, Povo. Não é barganha, é uma relação afetiva em que todos ganham.
Economia colaborativa
Outra coisa que a presença dos levitas lembrava para as tribos de Israel era que Deus desejava ensinar ao povo uma economia colaborativa. Um sistema econômico pautado na generosidade, na partilha e no cuidado mútuo.
Entregar as primícias para o templo fazia com que o povo fizesse um exercício de desapego. Pois, não estavam entregando para o levita propriamente dito, mas sim para Deus. O levita é, apenas, o representante divino. É uma representação, um símbolo.
Isso nos ensina que existem outras possibilidade de lidarmos com nossas finanças e bens. Não precisamos desejar lucro o tempo todo. Não precisamos ficar ganhando na compra, na venda, ou na ida e na volta. O mercado financeiro atual nos ensina isso, mas a economia divina nos ensina a compartilhar daquilo que temos e conquistamos.
Em uma Aliança de Sal não existe ganha-perde, mas ganha-ganha. Porque há colaboração.
Não estou dizendo que você precisa ser altruísta de um tudo. Doar por doar, compartilhar por compartilhar, isso não faz sentido. A economia divina demanda uma mudança de mentalidade. A Aliança de Sal está na lógica de pensamento e relação. É resultados de uma reconstrução de posicionamento e práxis.
Estou tentado apontar para uma postura desfocada do lucro abusivo. Em que os colaboradores, funcionários e afins não precisam trabalhar para além de suas capacidades físicas e mentais para gerar lucros ao patrão. Assim como, o patrão não precisa passar a vida preocupado se suas equipes estão trazendo algum prejuízo financeiro.
Pense comigo: e, se você desejasse que todas as pessoas do mundo tivessem algo confortável que você tem? Será que todos do seu bairro poderiam ter uma renda básica? Uma casa, um carro e um cachorro? Não estou sugerindo um padrão. Tampouco um sistema comunista como vemos mundo afora.
Estou falando do básico. Do mínimo para um bem estar comum. Estou propondo que toda a nossa sociedade poderia ter um mínimo para viver bem. Mas, sendo assim, o que eu e você podemos fazer agora para isso acontecer? Vamos ver no próximo tópico como os levitas trabalhavam isso.
Responsabilidade e zelo
Como já disse anteriormente, a economia divina não subsiste no ganha/perde, mas no ganha/ganha. O povo sustenta os levitas não, apenas, para serem assistidos religiosamente pelos sacerdotes, os levitas também legislavam as causas do povo e ofereciam formação educacional para as crianças. Essa era a dinâmica.
Ou seja, os levitas eram responsáveis pelo sistema religioso, educacional e judiciário de toda a nação.Grande parte da formação cultural do povo era regida por esses três pilares, sustentados pelos levitas. E agora te pergunto: quanto gastamos para manter esses sistemas ativos atualmente? Quanto recebe um juiz federal? Um parlamentar?
Havia, portanto, uma responsabilidade pesada atribuída aos levitas, que se não pudessem servir integralmente, o aculturamento e a construção de identidade da sociedade hebraica seria comprometida e desapareceria com o tempo.
Dessa forma, aprendemos que nenhum tipo de serviço religioso é barato para ser realizado. Há uma dissonância em nossa cultura de que todo pastor, ou clérigo é corrupto. Que não trabalham, nem estudam. Inclusive somos orientados no seminário a sempre buscar por uma segunda formação para não depender exclusivamente da igreja. Eu mesmo sou um reflexo disso.
Mas, a bem da verdade é que essa percepção é uma falácia. Isso vai de encontro ao que Deus planejou no início para aqueles que escolhessem exercer o sacerdócio. No fim, esse tipo de narrativa só existe para corroborar com uma sociedade capitalista que só visa o lucro em detrimento da perda.
Em consequência, só vemos cada vez mais pastores pregando conveniências em sermões rasos sem nenhum tipo de reflexão complexa e profunda. Pois, não conseguem tempo para se preparar adequadamente e, também, precisam legitimar o próprio sistema que os provê.
A aliança de sal no cristianismo
O que precisamos entender é que Deus chamou a nação de Israel para ser o exemplo para as outras nações. E, isso, reverbera na igreja cristã também. Jesus teve seu ministério sustentado por pessoas importantes e ricas. Mas, também por pessoas de classe média e baixa que compreendiam que precisavam participar daquele movimento.
Enquanto nós, como igreja, ficarmos apenas querendo ser como todos são, jamais conseguiremos ser luz ou sal para o mundo. É preciso voltar para algumas convicções estabelecidas por Deus, como a prerrogativa levita, por exemplo. A mesma aliança de sal que Deus firmou com Arão, Jesus firmou conosco, ao nos convocar a ser sal para a sociedade. Precisamos aprender a compartilhar. Desenvolver cada vez mais a nossa generosidade. Nós falamos mais sobre isso em outro post, se quiser ler é só clicar aqui.
A Aliança é de Sal, mas, será que nossos princípios e práticas têm temperado a vida das pessoas ao nosso redor? Ou será que sustentar o sacerdócio é um tabu para nós? Conseguimos enxergar uma economia colaborativa, ou simplesmente queremos ganhar sempre? Será que o desapego é algo real em nossas vidas ou apenas um discurso impraticável?
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