Solidariedade: o tempo de compartilhar é sempre!
Solidariedade é um tema tão antigo e, ao mesmo tempo, tão contemporâneo. Então, comecemos pelo registro bíblico.
Em Lucas 3. 10, João Batista é questionado a respeito de como as pessoas deveriam proceder para terem seus pecados perdoados.
“O que devemos fazer então?”, perguntavam as multidões. Ao que João respondia: “quem tem duas túnicas dê uma a quem não tem nenhuma; e quem tem comida faça o mesmo.”
Na época, as pessoas viviam um tempo de fome e miséria ocasionado pelo império romano, que privilegiava sua corte em Roma. Enquanto dominadores, exploravam o que podiam de suas colônias, no caso a Judéia.
E, se não bastasse isso, os líderes religiosos judeus alinhavam-se aos romanos para oprimir o povo, cobrando impostos além do que era estabelecido pelo estado romano. Ao passo que João Batista chama-os de “raça de víboras”.
E, sem falar nos soldados romanos, que aproveitavam para extorquir quem pudessem. Ou seja, um cenário de corrupção que gerava cada vez mais miséria e desordem. Alguma semelhança com nossos dias é mera coincidência? Não.
A bem da verdade é que ainda continuamos cometendo os mesmos erros desde os tempos de Jesus e João Batista.
E, por isso, a solidariedade ainda é um tema contemporâneo e necessário aos nossos dias, assim como a Bíblia é tão atual.
O que é Solidariedade?
Em tese, a solidariedade se resume em compartilhar algo com alguém sem esperar absolutamente nada em troca.
No seu sentido mais amplo, a solidariedade pressupõe um ato de bondade exercido sem discriminação de gênero, raça, religião, nacionalidade ou afinidade política.
A solidariedade é uma ação generosa, bem-intencionada que leva a união dos destinos de duas ou mais pessoas. É, no fim, um exercício de espiritualidade.
E, por isso, muitas religiões têm em sua base filosófica a solidariedade como um tema importante e fundamental.
Mas, a solidariedade não está e nem pode estar limitada às religiões ou à espiritualidade. A solidariedade é também um tema social.
Émile Durkheim é um dos teóricos mais influentes a respeito da solidariedade. Suas reflexões a respeito do trabalho o levaram a estabelecer conceitos para a solidariedade.
Durkheim tinha como questão central a compreensão de como se dá a coesão social, ou seja, entender como os indivíduos podem viver em sociedade de forma harmoniosa e responsável.
Nisso, o autor define que existem dois tipos de consciências:
- a consciência particular: o que nos caracteriza enquanto indivíduos
- a consciência coletiva: o conjunto de crenças e sentimentos comuns entre membros de uma sociedade.
Dito isso, é importante frisar que para Durkheim, as duas consciências são solidárias, pois coexistem e mesmo que distintas, permitem que o indivíduos permaneça ligado à sociedade.
Nisso, o autor define dois tipos de solidariedade: a solidariedade mecânica e a solidariedade orgânica. Dois conceitos importantes que veremos a seguir.
Solidariedade Mecânica
A solidariedade mecânica parte da ideia de que os indivíduos estão ligados ao grupo por conta das suas semelhanças. E, é nisso que se dá o vínculo social.
O exemplo mais concreto são as sociedades primitivas em que as consciências individual e coletiva são construtos de uma identidade social baseada nas semelhanças dos indivíduos.
Na solidariedade mecânica a divisão social do trabalho quase não existe e o direito é repressivo, ou seja, não há espaço para diversidade, nem de pensamento, nem de trabalho.
Nestas sociedades as leis servem para manter a coesão social, pois qualquer ação que vá contra a consciência coletiva exige a aplicação de uma pena para reforçar a identidade primordial.
Solidariedade Orgânica
A principal característica da solidariedade orgânica é que ela resulta de uma alta divisão social do trabalho. E nisso, surge a necessidade de uma interdependência social.
Na solidariedade orgânica, é a diferença entre os indivíduos que faz com que haja o vínculo social, não as semelhanças como na solidariedade mecânica.
Como resultado da intensa divisão social do trabalho, o indivíduo torna-se mais responsável por suas ações, ou seja, há um predomínio da consciência individual, afinal, os indivíduos dependem mais uns dos outros.
Na solidariedade orgânica, portanto, os indivíduos se agrupam segundo a atividade que exercem e não mais por causa das relações de descendência.
Um exemplo é a sociedade capitalista, em que as leis precisam ser restitutivas ou cooperativas para que as desigualdades sejam re-equilibradas.
Então, como ser mais solidário?
Há alguns anos atrás passamos pela experiência de uma pandemia. O coronavírus assolou a humanidade por completo. E, certamente você deve ter percebido uma enxurrada de boas ações efetuadas por instituições, igrejas e pessoas físicas.
Essa mobilização foi incrível e, de fato, abençoou muitas pessoas. Eu mesma, fiz parte de um grupo de mães que ao longo da pandemia arrecadou muitas coisas para abençoar outras mamães.
Mas será que essa prática é, realmente, contínua em nossas vidas?
Eu me deparei pensando em por que essa intensa mobilização de doações começou só agora na pandemia?
Por que só agora os grandes bancos e instituições privadas conseguiram doar milhões. Por que agora, e não antes?
Nosso país sempre sofreu com uma grande desigualdade social. E parece que até nos acostumamos a ver pessoas pedindo dinheiro na rua.
Mães sem dinheiro para comprar leite, pais mendigando fraldas, famílias inteiras sem emprego. Então, por que só agora?
Outro dia me peguei vendo uma telenovela dos anos 90 que está sendo reprisada. No diálogo, uma personagem disse à outra:
- “Mas lá na sua cidade todo mundo come bem, não é?”. E a outra respondeu: “Olha, na verdade não, porque existem dois tipos de pessoas no Brasil, aquelas que fazem regime e aquelas que passam fome”.
Essa conversa “fictícia” me interpelou. Feriu meu coração como uma faca bem afiada. Questionei internamente: como assim?
As estruturas parecem já ajustadas para a miséria. Está tudo no seu devido lugar e nós devemos, apenas, seguir os protocolos estabelecidos pela sociedade.
O que nos dizem é que sempre haverá ricos e sempre haverá pobres. Mas, será que é assim mesmo que temos que viver? Não há outra possibilidade?
Enquanto mãe, acredito que precisamos mostrar que há outras possibilidades para os nossos filhos.
Precisamos questionar as estruturas consolidadas e mostrar que não é certo que existam pessoas que “fazem regime” e pessoas que “passam fome”.
Mães que se solidarizam anunciam o evangelho
Às vezes fico a pensar como é possível que eu e você, conseguimos colocar nossos pequenos em camas quentinhas e confortáveis, enquanto, do outro lado da rua, uma criança dorme no chão? Eu me pergunto: como nós conseguimos viver com essa realidade todos os dias sem questionar?
Sabe, se no final do mês, você olhar na sua conta bancária e ainda existir dinheiro, e mais uma vez, você pagou todas as suas contas e ainda tem dinheiro sobrando. Parabéns, você é rico.
Rico, porque não tem falta de nada e tem sobrado dinheiro e não mês. Portanto, é sua obrigação compartilhar com quem não tem. Afinal esse é o evangelho de Jesus. É disso que João Batista está falando.
Se você entende que Deus está te abençoando, você é, considerando a sociedade que vivemos, um privilegiado. Não compartilhe somente hoje. Compartilhe o tempo todo, e abundantemente.
A propósito, no início da igreja o objetivo era o cuidado uns dos outros. Ou seja, o envolvimento com o outro. E, quando foi que perdemos essa essência? Quando foi que esquecemos nosso propósito de vida?
Meu desejo é que a Lis não ache normal que os ricos invisibilizem os pobres enquanto coexistem. Quero mostrar para ela que é nosso dever como discípulos de Jesus, compartilhar daquilo que temos.
Guarde no seu coração esta mensagem e mostre para o seu filho que não devemos ser mais ou melhor que ninguém neste mundo.
Que você mostre o caminho ao seu filho. A essência dos valores e dos princípios está na família.
Nós precisamos educar dando o exemplo, mostrando que a estrutura da sociedade é injusta, e que não devemos viver buscando coisas, apenas, para nós mesmos, mas, sim, precisamos olhar para o lado.
Minha oração hoje é que nós aprendamos a viver na sociedade de forma justa e generosa. E que você incentive seus filhos a se tornarem cidadãos que se envolvam com o outro, em amor e solidariedade.
[…] Enquanto nós, como igreja, ficarmos apenas querendo ser como todos são, jamais conseguiremos ser luz ou sal para o mundo. É preciso voltar para algumas convicções estabelecidas por Deus, como a prerrogativa levita, por exemplo. A mesma aliança de sal que Deus firmou com Arão, Jesus firmou conosco, ao nos convocar a ser sal para a sociedade. Precisamos aprender a compartilhar. Desenvolver cada vez mais a nossa generosidade. Nós falamos mais sobre isso em outro post, se quiser ler é só clicar aqui. […]