Davi era ruivo ou moreno?
A nossa falta de atenção aos detalhes diz muito sobre como fazemos a Leitura Bíblica, mas por que isso é perigoso?
Manhã normal, momento agendado para aquilo que costumeiramente no meio evangélico, sobretudo daqueles que carregam o peso da tradição, chamamos de devocional, vou ao livro Bíblico do primeiro Testamento chamado como I Samuel, para ler sobre Davi.
Eu estava incomodado com a história de sua escolha, aquelas sensibilidades que outras confundimos ou não, como a tentativa de ouvir o que Deus está falando para você, ou que gostaríamos de acreditar: Ele quer falar conosco.
Lógico, não se espante, dizer essas coisas é outro jeito de inserir armadilhas cognitivas para fazer os solitários leitores a olhar para os lados, antes de atravessar a rua (ou as ruas).
Dito isso, esclareço meu incômodo, olho para a nota de rodapé que tenta esclarecer aquilo que, para mim, era uma opção por variantes para descrever Davi: (a) Ruivo ou (b) Moreno.
Poucos detalhes provocam tanto ruído quanto esta descrição de Davi em 1 Samuel 16.12 e 17.42. Algumas versões dizem “ruivo”, outras optam por “moreno”, e esse descompasso não está no hebraico original, pasmem, está em nossas traduções e, sobretudo, em nossa pressa em ler.
O termo hebraico admôní significa literalmente avermelhado. É a mesma palavra usada para Esaú. A Septuaginta grega preserva a nuance com pyrrákēs, também ligado ao vermelho. A Vulgata segue na mesma linha: rufus.
Ou seja, a tradição textual não é ambígua. A oscilação é fruto da interpretação moderna que, ao traduzir para o português, prefere o moreno como adaptação cultural.
Esse detalhe aparentemente banal denuncia algo maior: a fragilidade de nossa leitura bíblica quando não prestamos atenção ao texto em si.
Transformar Davi em ruivo ou moreno não é apenas trocar uma cor, é alterar a forma como o imaginamos, um jovem exótico, de aparência distinta, ou alguém de feições comuns ao Mediterrâneo.
Quando deixamos escapar o detalhe, abrimos espaço para reconstruções culturais que dizem mais de nós do que do texto.
O perigo é duplo. Primeiro, porque naturalizamos a Bíblia às nossas expectativas, domesticando-a. Segundo, porque passamos a debater caricaturas ao invés de lidar com o que o texto realmente diz.
É assim que versões populares se cristalizam em teologias frágeis, sustentadas em imagens improvisadas, não em rigor exegético.
A falta de leitura atenta alimenta a circulação de Bíblias de opinião, em que o que importa não é o texto, mas o que cada grupo deseja enxergar nele.
O caso de Davi é exemplar. A oscilação entre ruivo e moreno revela mais sobre nossas lentes culturais do que sobre sua aparência.
Ignorar esse ponto é reforçar um hábito perigoso: o de ler a Escritura como espelho do nosso imaginário, em vez de como testemunho histórico, linguístico e teológico que exige cuidado.
Detalhes são janelas e quando as fechamos, perdemos a profundidade da paisagem.
Para os editores de diversas Bíblias em Português (Vamos abrasileirar a conversa), não há nenhum problema em jogar essa ratoeira no Rodapé, afinal de contas, boa parte dos leitores não vai ler e, se lerem, nem vão notar. Eu notei. Eu fiquei incomodado.
Um jabuti, ou melhor, para não fugir do ambiente bíblico, um camelo foi aí colocado ou escapou do processo de coação (Deixo aqui ambiguidade de coação para uma escolha livre do leitor: como coar ou constranger).
É assim, me perdoem o salto explicativo, que observamos a facilidade de usar a Bíblia como legitimadora de discursos de ódio, dissonâncias cognitivas, defesas de um domínio escancarado de um Cristianismo sem Cristo, porque Ele, sem dúvida alguma, nesse contexto, só atrapalha a vendinha, o carro dos sonhos. Levamos, com detalhes como esses, não apenas nossos olhares, mas sem vergonha alguma, nossas canetas.
Fica mais fácil dizer e reafirmar, nunca desdizer.

