Scroll Top

Liberdade: uma coleira com amor

Liberdade

É liberdade ou só uma coleira de amor?

Não é de hoje que a avaliação de Liberdade nos circunda, abunda e desabunda, seja enviesada por Agostinho, Stuart Mill, Espinoza, desembocando em Lewis,  J.K. Rowling, Tolkien ou E.L. James, para citar alguns (Escolha quase aleatória, há motivos subjetivos conscientes e outros nem tanto para a lista), até os célebres efeitos do casal Face/Instagram em que fotos descontextualizadas dos textos, muitos, inclusive acompanhados de um pot-pourri (Nem perca tempo, essa é a forma correta de escrita) de “sem noçãozisse”. 

Enfim, somos assombrados pela falsa associação entre escolhas livres e “escolhas”impostas (se é que me entendem). Não levem a mal, a fronteira é muito tênue, principalmente, porque as justificativas são tão bem elaboradas que chegamos a ver amor nos olhos de satã. 

Particularmente, vivo migrando de Kant para Hegel e, eventualmente, saio no jaguar de Foucault à noite (não pelos mesmos motivos). Estou seriamente tentado a substituir o termo liberdade por escolhas e consequências, num ad infinitum. 

Embora não confunda “sentir-me” bem como sou livre ou “vou fazer” o que quiser porque a vida passa logo, etc. Acho relevante tocar “en passant” o tema. 

Como boa parte de minhas férias (duro, careta, sistemático, sem graça) passo contando histórias para os netos, falo-ei (lembrei-me de Jânio Quadros, os mais antigos vão saber o motivo) relembrando uma das histórias que contei para o neto mais velho (6 anos no momento).

Na fábula “O Lobo e o Cão” (La Fontaine) há um trecho bem sugestivo do diálogo entre o Lobo já quase seduzido pelo cão para ter uma vida “lobo busca”(nababesca) se decidisse sacrificar (Numa versão contemporânea de auto ajuda: acomodar-se, aproveitar a oportunidade, ter visão, sair da zona de conforto, deixar a velha vida)  sua natureza (Vamos tomar aqui como sentido o que escolheu para si. 

Essa opção é possível porque é justamente isso que La Fontaine propõe para os humanos, uma troca metafórica). Vamos lá:

*(O Lobo e o Cão, transcrita sem observar o novo acordo ortográfico, salvo onde o corretor ortográfico deu piti).

  • – (Cão) Mas você também pode levar uma vida boa, assim como eu. Abandone a floresta, vá viver entre os homens e seja feliz.
  • – (Lobo) É mesmo? E o que devo fazer entre os homens?
  • – (Cão) Quase nada. Somente guardar a casa, pôr a correr os pedintes, fazer agrados aos donos…Coisas assim.

O lobo já se imaginando morando nos jardins de uma casa esplêndida e tranquila, sem saudades dos tempos quando tinha de brigar muito para sobreviver na floresta, reparou, então, em algo em volta do pescoço do cão.

  • – (Lobo) E o que é isto?
  • – (Cão) Não é nada, é só uma coleira. Meu dono a usa quando quer me prender.
  • – (Lobo) Quer dizer que você não é livre para ir onde e quando quiser?
  • – (Cão) Claro que não. Tenho dono. Mas de que serviria ser livre?
  • – (Lobo) Pois faça bom proveito de sua boa vida! – Desejou o lobo, disparando para a floresta. E até hoje continua a correr.

Bom, desculpe atrapalhar seus sonhos e suspiros (mesmo que você creia firmemente nisso) eu não acredito em Liberdade. 

Acredito em escolhas constantes seguindo o modelo matemático: Custo/Benefício, calculados rigorosamente (Não como fazem os lêmures durante o período de provas). 

Ao contrário do que possam pensar, esse é um exercício extremamente rigoroso (claro, sem esconder-me de  Tique e seu disfarce romano, Fortuna, temperamentais, aliás, como todas ou todos do “Olimpo ou de seus correlatos”), já que, entre outras coisas nos tornamos eternos boticários….E olha, visitar a botica (Não boteco, embora, às vezes funcione) é entediante….

Finalizo, por fim, recorrendo ao filósofo* Alexandre Pires: O que eu vou fazer com essa tal liberdade? Bem, por enquanto, aos 57, vou teimar em reconhecer coleiras.

*Não há porque não premiá-lo assim, se afinal, até a bumbumdusca,  desculpe, popozuda (ato falho?), foi (por uma alteração midiático-genética, se é que me entendem) alçada à categoria de grande pensadora.

Desdizeres
Uipirangi Câmara
Doutor e Mestre em Ciências da Religião, Especialista em Tecnologias Educacionais, Especialista em Filosofia e Teoria do Direito, Professor de Filosofia Geral, Filosofia da Educação, Filosofia do Direito e Sociologia Jurídica.
Privacy Preferences
When you visit our website, it may store information through your browser from specific services, usually in form of cookies. Here you can change your privacy preferences. Please note that blocking some types of cookies may impact your experience on our website and the services we offer.