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Negue-se a si mesmo, vem e segue-me

Por Rangel Ramos
o chamado da montanha

NEGUE-SE A SI MESMO, vem e segue-ME 

Todos os evangelhos sinóticos  trazem a mesma passagem em que Jesus diz: ‘se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente sua cruz, vem e segue-me”. Você pode encontrar em Mateus 16.24; Marcos 8.34; Lucas 9.23.

Mas, vamos ao contexto que levou Jesus cunhar a frase “negue-se a si mesmo” para entender o que o mestre quis dizer com essa palavra que nos dias atuais poderia ser interpretada como falta de amor próprio.

Logo após perguntar aos seus discípulos quem o povo dizia que ele era, Jesus volta-se à multidão e recomenda que quem quiser continuar aquela jornada deve negar a si mesmo e tomar sua cruz diariamente.

Jesus acabara de ouvir de seus discípulos que o povo confundia-o com João Batista ou com algum profeta reencarnado e, apenas, Pedro teve a coragem de reconhecê-lo como o Cristo.

Provavelmente a falta de compreensão da multidão foi o que motivou Jesus a recomendar que somente aqueles que negassem a si mesmo e tomassem suas próprias cruzes poderiam, realmente, acompanhá-lo ao que haveria de acontecer nos próximos dias.

Quantos ainda hoje dizem seguir Jesus, mas não compreendem que ele é o cristo de Deus?

Muitos de nós vêem Jesus como um grande Mestre, alguém digno da galeria dos grandes ícones religiosos da história da humanidade. E, não está errado. Ele, realmente merece esse destaque.

Outros colocam Jesus ao lado de Gandhi, Dalai Lama, Buda, entre outros. Há outros ainda que compreendem Jesus como um místico, no sentido de alguém com poderes sobrenaturais, com um acesso direto e único com Deus, através de um oráculo ou algo assim. 

Mas, Herodes, Pilatos e outros romanos interpretaram que Jesus era um rei, portanto, uma ameaça política. Ainda hoje muitos pensam no nazareno como, apenas, um revolucionário, e que seus seguidores devem sempre estar revolucionando todo sistema ou regime político.

E, ainda outros entram em crise porque pensam que ao seguir Jesus vão perder sua autonomia e não terão mais suas próprias escolhas. Acham que é necessário se anular e ser alguém que não conseguem ser.

Jesus, o Cristos de Deus

Há inúmeras formas de compreender e interpretar quem é Jesus. Mas, de tudo que ele é, ou de tudo que gostaríamos que ele fosse, não há nada além do que ser o Cristo de Deus.

Jesus abre mão de qualquer título ou atributo para ser o escolhido (ungido) de Deus para a salvação da humanidade. E, o que isso quer dizer?

Cristo é uma palavra grega, transliterada para o português e significa: escolhido / ungido / legitimado para determinado fim. Cristo não é o sobrenome de Jesus, é na realidade, o único atributo genuíno que ele recebe. Jesus foi ungido para sofrer a paixão de Deus pela humanidade.

Por isso, logo após a confissão de Pedro, Jesus ordena aos seus discípulos que não digam a ninguém que ele é o Cristo, pois ele haveria de sofrer todas consequências por ser o escolhido de Deus. Mas, ao mesmo momento, também volta-se a multidão e lança a recomendação:

“negue-se a si mesmo, tome sua cruz diariamente, vem e segue-me”.

 

E o que significa negue-se a si mesmo? O que Jesus quis dizer ao provocar a multidão nesse sentido?

No post de hoje eu gostaria de pincelar a expressão grega “arneomai“, que segundo Louw e Nida (2013) significa “não levar em consideração, não dar atenção a, dizer não para alguma coisa ou alguém”. E, no caso do texto de hoje, dizer “não” a si mesmo ou as suas próprias vontades e interesses. 

Reconhecer a própria Natureza

Ora, negar a si mesmo começa, portanto, pelo reconhecimento de quem somos. Começa pelo reconhecimento da nossa natureza pecaminosa, corrompida e contaminada. Segundo nossa tradição teológica somos semente de Adão.

Negar a si mesmo, portanto, passa pelo reconhecimento e compreensão da nossa falibilidade humana. Ou seja, passa pela nossa incapacidade de sermos novamente aceitos e religados à Deus. 

Não somos capazes de saciar a justiça divina por nós mesmos e, por isso, precisamos do Cristo, ou melhor, do Cordeiro Santo que tira o pecado do mundo.

Sem o agnus dei, não poderíamos jamais nos conectarmos com Deus. Por Adão, o primeiro homem, o pecado entrou e, somente por um homem o pecado poderia ser retirado da equação humana.

Essa é finalidade do Cristo: tirar o pecado do mundo.

Jesus está dizendo para a multidão, para mim e para você que se quisermos segui-lo precisamos negar essa condição humana.

Precisamos olhar no espelho e buscar ver quem somos sem a variável pecado na equação, pois, o Cristo de Deus já tirou o pecado do mundo.

Ele nos libertou de nós mesmos, ou seja, da nossa condição humana de existência. Logo, eu e você podemos reconhecer nossa falibilidade e negá-la, crendo que já não há mais condenação aos que crêem no Cristo de Deus.

Portanto,  o primeiro aprendizado da expressão “negue a si mesmo” é que não conseguimos fazer nada sozinhos.

A fala de Jesus nos ensina que sem o reconhecimento da atuação de Jesus estaríamos eternamente condenados ao juízo.

Não podemos se conectar a Deus através dos nossos rituais religiosos ou nossos sistemas de crenças e afins.

Mas, em Jesus, sem a variável pecado na equação, somos autorizados a seguir em direção ao amor de Deus e nos reconectarmos à Ele. 

Negar a si mesmo não é anular-se

Algumas pessoas pensam que Jesus sugere que para segui-lo precisamos  nos anular. Temos que parar de fazer isso ou aquilo. Que temos que ser uma pessoa que não somos.

Contudo, a proposta de Jesus é exatamente o oposto disso. Negar a si mesmo não é anular-se. Deus sempre trabalha em parceria com o ser humano. Essa é uma regra divina preestabelecida e que convencionalmente chamamos de inspiração. 

Se cremos que Deus nos criou, então, aceitamos que nossa personalidade, características e aspectos singulares são resultado da própria obra criadora de Deus. Somos imagem e semelhança. Dentro de nós há a mesma essência que a de Deus.

Portanto, é óbvio que Deus não quer que deixemos de lado quem somos. Devemos reconhecer nossa condição de pecadores que necessitam da redenção crística, mas aquilo que temos de força e fraqueza são aperfeiçoados através do nosso relacionamento com Deus e, por isso, o Espírito Santo nos foi enviado.

É ele quem nos inspira, consola e dirige. Ele é chamado pela Bíblia de “consolador”.

A obra divina passa pelo tratamento da nossa personalidade. Você não precisa se anular. Não precisa tentar ser quem você não é. Basta, apenas se submeter ao processo redentor.

Encare as situações da sua vida tendo em mente que tudo pode ser um aprendizado para o seu desenvolvimento. Coloque-se diante de Deus e questione como você pode se tornar alguém melhor com tudo o que está vivendo,

Troque a reclamação e aquela velha buscar pelo porquê de certas coisas estarem acontecendo com você por uma visão mais madura que vai sempre te levar para um aprendizado.

Mas, Como crescer espiritualmente?

Pergunte-se: ao que eu posso dizer não, para dizer sim ao meu crescimento espiritual?

Muitas pessoas pensam que desenvolvimento pessoal é algo divertido, leve e tranquilo. Porém, só quem já passou sabe o quanto é doloroso enfrentar a si mesmo sem, necessariamente se anular.

A linha que separa a negação de uma anulação total é muito tênue. Muitos dos piedosos, dos que acreditam que o isolamento em monastérios é saída, pensam que se ao se anularem serão mais espirituais. No entanto, o desenvolvimento espiritual está exatamente no contrário disso, está no contato com os outros. 

Francisco de Assis foi um dos grandes nomes da história do cristianismo que compreendeu que poderia dizer não a si mesmo, sem se anular. Ele era um jovem rico, que percebeu o quão longe a pregação de seu tempo estava da realidade que o povo vivia.

Enquanto os pregadores só faziam sermões em latim, dentro de templos gigantescos decorados em ouro, para pessoas nobres e ricas, Francisco assumiu voto de pobreza e passou a pregar nas praças públicas, na língua do povo, levando esperança para pessoas pobres e esquecidas.

Negue para si aquilo que é tóxico. Assuma quem você é. Aceite sua condição de pecador(a) e busque pela direção do Espírito Santo. É assim que nós nos desenvolvemos.

É assim que acontece o crescimento espiritual. Não é rápido. Não é fácil. Não é instantâneo. Mas, é satisfatório, traz maturidade e dá serenidade para nossas vidas. Mas só consegue, quem começa. E o começo é negar a si mesmo sem se anular totalmente.  

Negue a si mesmo é ceder o controle

Me canso de ver pessoas que buscam a felicidade, mas não conseguem se desprender de seus vícios, dos seus relacionamentos tóxicos e mudar comportamentos ofensivos. Querem crescer, mas a cada situação ruim que são acometidas reagem com raiva, desrespeito e arrogância. 

Dizer não a si mesmo é aprender a identificar o que é sua vontade e o que é vontade de Deus?

É engraçado como muitas vezes as pessoas lidam com Deus como se Ele fosse uma amuleto da sorte. Egoístas, desejam que Deus resolva seus problemas e assuma todos os riscos e consequências de suas atitudes. 

Deus não é um gênio da lâmpada ao qual você recorre sempre que quer alguma coisa.

O processo é o outro, Ele não é seu servo, seu escravo ou seu empregado. Enquanto você se relacionar com Deus sempre na expectativa de que vai receber isso ou aquilo, você continuará frustrado. Porque não é assim que funciona.

Antes de tudo você precisa ceder o controle para Deus. Dizer não ao que você quer e deseja e deixar o próprio Deus te mostrar os caminhos, ainda que as escolhas sejam sempre suas.

Afinal, quem trilha o caminho é você. Mas, você não precisa fazer isso sozinho. Você pode descansar e aguardar pelas opções que o próprio Deus vai te mostrar. 

Ninguém desenvolve uma espiritualidade do dia pra noite, em um estalar de dedos. Todos estamos em uma verdadeira jornada espiritual. Nisso, passamos por momentos complicados e por outros de sucesso e bem-estar.

A questão não é onde você vai chegar no final, mas como você está trilhando esse caminho, o seu caminho. 

Enquanto você continuar a fazer tudo na força das suas mãos, provavelmente o caminho será doloroso demais. Eu até acredito que você vai conseguir muita coisa, até porque como já disse, Deus também não faz tudo por nós, é sempre uma parceria.

Mas, se você pudesse parar agora, o que entregaria para Deus? O que deixaria Ele fazer? 

Talvez, a maior dificuldade de nossa jornada espiritual é saber quando dizer não e quando dizer sim. Saber o que é nossa responsabilidade e o que é que Deus pode fazer. O que eu devo fazer e o que não devo fazer.

É por isso, que negar a si mesmo é também ceder o controle. Na jornada é o próprio Deus que nos mostra ao que devemos dizer não.

Negue-se a si mesmo: “armenostai”

Por fim, a expressão “armenostaié usada no aoristo, um tempo que não existe na gramática do português. No grego, os verbos que estão em aoristo significam que são ações feitas uma vez, mas que reverberam para sempre. Ou seja, uma atitude feita definitivamente e que tem efeitos eternos. 

Portanto, é hoje.

Uma vez que você entendeu o que é “negar a si mesmo”, o convite de Jesus é para que você faça isso aqui e agora. Este é momento. Se você orar neste sentido, pronto.

Você negou, continuará negando e negará para sempre a si mesmo. Aqueles que desejam acompanhar Jesus precisam, definitivamente, assumir tal postura.

Você está pronto para isso?  

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Rangel Ramos
Doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mestre em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF). E bacharel em Teologia e em Comunicação. Escreve sobre liderança, desenvolvimento pessoal e textos devocionais. É um dos idealizadores do movimento Uns Aos Outros.

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