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Religião e Política: o extermínio no imaginário brasileiro

Por Uipirangi Câmara
Religião e Política

Deus, ordem e tiros: religião e a política do extermínio no imaginário brasileiro.

Religião e Política se misturam no imaginário brasileiro ao observar que a megaoperação de 28 a 31 de outubro de 2025 no Rio de Janeiro ocorreu sob forte respaldo da opinião pública. 

No agregado nacional, 55,2 por cento dos brasileiros disseram aprovar a ação, segundo Atlas Intel, percentual replicado por diferentes veículos. Na capital fluminense, o apoio chegou a 62,2 por cento. 

Nos recortes territoriais mais sensíveis, a mesma base apontou aprovação muito elevada entre moradores de favelas do Rio, com 87,6 por cento favoráveis. 

No recorte religioso, que interessa diretamente a este artigo, os resultados são ainda mais desafiadores para a consciência cristã. Entre evangélicos, 77,6 por cento declararam apoio à megaoperação, contra 40,4 por cento entre católicos e 42,2 por cento entre adeptos de outras religiões, de acordo com reportagens que divulgaram os cruzamentos da AtlasIntel. 

Esses percentuais não autorizam conclusões teológicas automáticas, mas indicam que parte expressiva do público cristão brasileiro tem associado a defesa da ordem a estratégias letais de segurança, o que exige reflexão séria à luz de princípios de dignidade humana, justiça e devido processo legal que a própria fé confessa

religião e política grafico

Por que estamos falando disso agora?

Cristãos no Brasil têm defendido operações policiais letais como se fossem a resposta mais rápida para a violência, só que essa defesa entra em choque com princípios centrais da fé, como dignidade humana, justiça e misericórdia. 

O apoio não nasce apenas de ideologias, ele mistura medo diário, discursos sobre autoridade do Estado, cobertura de mídia que confunde matar com restaurar a ordem e leituras religiosas que acabam legitimando a força acima da lei. 

Queremos entender por que essa mistura naturaliza a morte de pessoas já estigmatizadas e relativiza o devido processo legal, transformando a força punitiva em sinônimo de justiça. A hipótese é simples, ainda que dura de encarar, existe uma gramática teológico‑política que autoriza a violência quando se combina medo difuso, promessa de redenção pela ordem e narrativa de guerra ao crime, gramática que conversa com necropolítica, moralidade retributiva e a figura de um inimigo sacrificável (Mbembe: 2018; Girard: 1990; Agamben: 2007).

Duas perguntas que toda pessoa de fé precisa fazer

  • Primeiro, em quais condições teológico‑éticas parte dos cristãos aceita a expansão do poder letal do Estado como se fosse legítima e moral?
  • Segundo, como esse assentimento conversa com desigualdade social, com a forma como a mídia enquadra o crime, com projetos políticos punitivistas e com rotinas institucionais que enfraquecem controles da lei. 

Responder a essas perguntas abre caminho para um ethos cristão que proteja a vida, garanta segurança e respeite a legalidade? Quatro ideias para não se perder no debate

Necropolítica em chave urbana

É a decisão prática sobre quem pode viver e quem pode morrer em territórios marcados por raça, pobreza e estigma. 

Nas cidades brasileiras, isso aparece quando áreas inteiras viram zonas de exceção de fato, com incursões que expõem populações ao risco permanente, como se a vulnerabilidade fosse culpa do território e não resultado de políticas públicas. 

A fé cristã põe um limite anterior a qualquer cálculo de oportunidade, vidas não são descartáveis (Mbembe: 2018; Agamben: 2007).

Retribuição moral e teologia civil da ordem

Retribuição moral é a vontade de ver o castigo imediato, como se a dor do outro curasse a ferida da sociedade. 

Quando essa vontade ganha roupa religiosa, nasce uma teologia civil da ordem que absolutiza a autoridade do Estado e canoniza soluções de força. 

A tradição cristã impõe dois freios, autoridade só é autoridade quando responde à lei justa e à prestação de contas, e justiça não é vingança (Bonhoeffer: 2009; Volf: 2019; Tillich: 2009).

Devido processo legal como critério cristão de justiça pública

Devido processo, presunção de inocência e controle do uso da força não são detalhes técnicos, são salvaguardas morais. 

O juízo cristão sobre segurança precisa perguntar se houve planejamento, controle externo da atividade policial, transparência ativa e responsabilização quando algo sai do lugar. Fins desejáveis não autorizam meios letais fora da lei (BRASIL/STF, ADPF 635; FBSP: 2025).

O inimigo sacrificável no imaginário midiático

É quando certos corpos viram alvo legítimo de eliminação, sem prova, só por estigma. Juventude negra, pobreza e endereço passam a significar suspeição permanente. 

O debate sai das garantias legais e entra na contabilidade de corpos e armas apreendidas. A comunidade de fé não foi chamada para abençoar esse mecanismo, e sim para interrompê-lo (Girard: 1990; Agamben: 2007).

Como vamos trabalhar com os fatos?

Usaremos séries do Rio de Janeiro na última década, documentos jurídicos e pesquisas de opinião com recortes religiosos. 

Os números vêm do Instituto de Segurança Pública do RJ e do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Vamos marcar mudanças metodológicas e evitar inferir causalidade sem desenho adequado (ISP‑RJ: 2025; FBSP: 2025).

O que aconteceu na Operação Contenção, sem atalhos

Entre 28 e 31 de outubro de 2025, governo e polícias deflagraram a Operação Contenção nos complexos da Penha e do Alemão. 

Foram 100 mandados de prisão expedidos e 20 cumpridos até 31 de outubro; parte dos alvos morreu na ação (Agência Brasil: 2025a). 

Os balanços oficiais falam em 121 mortos no total, com 117 classificados como suspeitos e 4 policiais, e divulgaram 99 nomes identificados até 31 de outubro (CNN Brasil: 2025a). 

A Defensoria Pública do Estado registrou mais de cem mortos já no dia 29 e estimou 132 óbitos ao considerar registros paralelos (DPRJ: 2025). 

O governo informou que, entre os 99 identificados, 78 tinham histórico criminal e 42 possuíam mandado pendente (EL PAÍS: 2025). No pano de fundo da década, em 2025 até setembro havia 519 mortes por intervenção de agente do Estado contra 558 no mesmo intervalo de 2024 (Governo RJ: 2025). 

A opinião pública indicou 55,2% de aprovação nacional, 62,2% na capital, 77,6% entre evangélicos e até 87,6% entre moradores de favelas em reportagens que repercutiram o estudo da AtlasIntel (VEJA: 2025; R7: 2025; EXAME: 2025; CNN Brasil: 2025b).

Antes de aplaudir, faça estas quatro verificações cristãs

Planejamento formal e comunicação ao Ministério Público; critérios de uso progressivo da força e preservação de cena; transparência ativa com dados de mortos, feridos e identificação nominal; responsabilização quando surgirem indícios de violação (BRASIL/STF, ADPF 635; FBSP: 2025).

Para onde queremos ir como comunidade de fé

Encerrar este debate com indiferença não é opção para quem confessa a fé cristã. 

Cada corpo tombado em operações que ignoram salvaguardas legais não é apenas um número, é uma pessoa criada à imagem de Deus, e a forma como reagimos a isso revela que tipo de comunidade queremos ser. 

O Evangelho não nos autoriza a sacrificar vidas em nome de eficiência, nem a substituir justiça por vingança; ele nos chama a proteger o inocente, a garantir o direito do suspeito e a limitar o poder pela lei, porque autoridade sem prestação de contas degenera em arbitrariedade (Bonhoeffer: 2009; Volf: 2019). 

Quando a exceção vira rotina e o inimigo sacrificável ocupa o lugar do próximo, traímos o mandamento do amor e enfraquecemos o próprio Estado de Direito que deveria servir ao bem comum, reproduzindo uma lógica de morte já descrita nas análises críticas da necropolítica e da vida nua em contextos de exceção (Mbembe: 2018; Agamben: 2007).

É hora de assumir responsabilidade em três níveis. Diante de si, cada cristão precisa examinar a consciência e reconhecer quando o medo, a raiva e a pressa por ordem imediata passaram por cima do discernimento e da misericórdia. 

Diante da sociedade, igrejas e lideranças públicas devem sustentar, com coragem, um compromisso claro com legalidade, planejamento, controle externo da atividade policial, transparência ativa e responsabilização efetiva sempre que houver abuso, porque segurança legítima exige limites e luz. Diante de Deus, prestaremos contas por cada vez que abençoamos atalhos letais, por cada silêncio cúmplice e por cada narrativa que normalizou a morte de estigmatizados como preço aceitável da paz. 

O caminho cristão não é ingenuidade diante do crime, é firmeza com justiça, coragem com limites, autoridade com serviço e respeito inegociável à vida. 

Que nossas comunidades escolham políticas que preservem pessoas e fortaleçam instituições, para que a ordem buscada não seja a máscara do extermínio, mas fruto de justiça que pacifica e reconcilia.

 

Referências (ABNT)

AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.

AGÊNCIA BRASIL. Megaoperação no Rio cumpriu 20 dos 100 mandados de prisão pretendidos. Brasília: EBC, 31 out. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-10/megaoperacao-no-rio-cumpriu-20-dos-100-mandados-de-prisao-pretendidos. Acesso em: 2 nov. 2025.

AGÊNCIA BRASIL. Veja as operações policiais mais letais no Rio nos últimos anos. Brasília: EBC, 28 out. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-10/veja-as-operacoes-policiais-mais-letais-no-rio-nos-ultimos-anos. Acesso em: 2 nov. 2025.

BONHOEFFER, Dietrich. Ética. São Leopoldo: Sinodal, 2009.

BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 635. Brasília: STF, vários anos. Disponível em: https://portal.stf.jus.br/. Acesso em: 2 nov. 2025.

CNN BRASIL. RJ identifica 99 mortos em operação policial; 42 tinham mandados de prisão. São Paulo: CNN Brasil, 31 out. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/rj/rj-identifica-99-mortros-em-operacao-policial-42-tinham-mandados-de-prisao/. Acesso em: 2 nov. 2025.

CNN BRASIL. Pesquisa: 8 em cada 10 moradores de favelas no Rio aprovam megaoperação. São Paulo: CNN Brasil, 31 out. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/rj/pesquisa-8-em-cada-10-moradores-de-favelas-no-rio-aprovam-megaoperacao/. Acesso em: 2 nov. 2025.

CORREIO BRAZILIENSE. Genial/Quaest: 64% dos moradores do Rio aprovam operação no Complexo do Alemão. Brasília: Correio Braziliense, 2 nov. 2025. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2025/11/7283877-genial-quaest-64-dos-moradores-do-rio-aprovam-operacao-no-complexo-do-alemao.html. Acesso em: 2 nov. 2025.

DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Nota pública sobre megaoperação de 28 de outubro de 2025. Rio de Janeiro: DPRJ, 29 out. 2025. Disponível em: https://defensoria.rj.def.br/noticia/detalhes/32141-Nota-Publica-megaoperacao-policial-do-28-de-outubro-de-2025. Acesso em: 2 nov. 2025.

EL PAÍS. La policía de Río afirma que 78 de los 99 muertos identificados tenían antecedentes graves. Madrid: EL PAÍS América, 31 out. 2025. Disponível em: https://elpais.com/america/2025-10-31/la-policia-de-rio-afirma-que-78-de-los-99-muertos-identificados-tenian-antecedentes-graves.html. Acesso em: 2 nov. 2025.

EXAME. AtlasIntel: 80,9% dos moradores de favelas aprovam operação no Rio. São Paulo: Exame, 31 out. 2025. Disponível em: https://exame.com/brasil/atlasintel-809-dos-moradores-de-favelas-aprovam-operacao-no-rio/. Acesso em: 2 nov. 2025.

FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. São Paulo: FBSP, 2025. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2025/09/anuario-2025.pdf. Acesso em: 2 nov. 2025.

GIRARD, René. A violência e o sagrado. São Paulo: Paz e Terra, 1990.

GOVERNO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Governo do Estado do Rio divulga dados do ISP de setembro. Rio de Janeiro: Governo RJ, 20 out. 2025. Disponível em: https://www.rj.gov.br/noticias/governo-do-estado-do-rio-divulga-dados-do-isp-de-setembro6464. Acesso em: 2 nov. 2025.

INFO MONEY. AtlasIntel: 80% dos moradores de favelas do RJ aprovam megaoperação contra o CV. São Paulo: InfoMoney, 31 out. 2025. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/brasil/atlasintel-80-dos-moradores-de-favelas-do-rj-aprovam-megaoperacao-contra-o-cv/. Acesso em: 2 nov. 2025.

INSTITUTO DE SEGURANÇA PÚBLICA DO RIO DE JANEIRO. Letalidade: séries históricas e painéis. Rio de Janeiro: ISP-RJ, 2025. Disponível em: https://www.ispvisualizacao.rj.gov.br/Letalidade.html. Acesso em: 2 nov. 2025.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n‑1 edições, 2018.

R7. 87,6% dos moradores de favelas do Rio aprovam megaoperação policial, aponta levantamento. Brasília: R7, 31 out. 2025. Disponível em: https://noticias.r7.com/cidades/876-dos-moradores-de-favelas-do-rio-aprovam-megaoperacao-policial-aponta-levantamento-31102025/. Acesso em: 2 nov. 2025.

TILLICH, Paul. Teologia da cultura. São Paulo: Fonte Editorial, 2009.

VEJA. Maioria da população aprova operação policial no Rio, revela pesquisa AtlasIntel. São Paulo: Veja, 31 out. 2025. Disponível em: https://veja.abril.com.br/brasil/maioria-da-populacao-aprova-operacao-policial-no-rio-revela-pesquisa-atlasintel/. Acesso em: 2 nov. 2025.

VOLF, Miroslav. Exclusão e abraço: uma reflexão teológica sobre identidade, alteridade e reconciliação. São Paulo: Mundo Cristão, 2019.

Uipirangi
Uipirangi Câmara
Doutor e Mestre em Ciências da Religião, Especialista em Tecnologias Educacionais, Especialista em Filosofia e Teoria do Direito, Professor de Filosofia Geral, Filosofia da Educação, Filosofia do Direito e Sociologia Jurídica.
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